Educação para a primeira infância em Sydney




Mudança para um novo país, seja ele qual for, é sempre difícil. A empreitada ganha desafios ainda maiores quando precisamos dar conta não só da nossa própria adaptação, mas também a de nossas crianças. São muitos os fatores que entram em jogo: perdas, medos, luto, curiosidade, resistência, regressões a comportamentos anteriores e por aí vai. É mesmo como um balaio de emoções. Em meio a tudo isso, nos deparamos com a tarefa essencial de encontrar uma escola que nos ajude a atravessar o delicado caminho da transição.

Não tem jeito, sempre haverá uma ruptura. Para as crianças que já frequentavam a escola, o entusiasmo de conhecer novos colegas e professores dividirá espaço com o estranhamento diante de um novo ambiente e metodologia. Para aquelas que irão estudar pela primeira vez no novo país, existirá a dificuldade de deixar a companhia exclusiva dos pais e cuidadores para passar um tempo sozinhos em um ambiente externo, que ainda não representa conforto.

Como nada na nossa vida de expatriados é fácil, basta termos muita firmeza e não esmorecer. Com pesquisa e boas informações, temos tudo para encontrar a melhor escola para os pequenos. O importante é que a instituição jogue junto e entenda as demandas emocionais e também operacionais de uma criança que está lidando com mudança de país.

Bom, vou falar sobre a minha experiência. 

O objetivo principal deste texto é falar sobre o que tenho observado aqui na Austrália, onde vivo há pouco mais de dois meses. No entanto, é inevitável mencionar o sistema de pré-escola nas Filipinas, que foi onde meu filho nasceu e onde começou a frequentar a escolinha por volta de 1 ano de idade.

Penso que as diferenças observadas na pré-escola dos dois países, na verdade, dizem muito sobre a própria forma como Filipinas e Austrália se organizam enquanto sociedade. A escola acaba refletindo diversas estruturas sociais e acho muito interessante observar isso. Vejamos:

Escola nas Filipinas

O cenário mais comum entre as mães expatriadas é ter uma babá e alguém para ajudar nos serviços domésticos. As babás filipinas são, inclusive, reconhecidas como as melhores do mundo. A mão de obra lá é barata, então acaba que as pessoas não têm tanta necessidade de colocar filhos pequenos na escola por um dia inteiro, por exemplo. O tempo regular na escola para os pequenos é de apenas duas horas por dia. Geralmente, o primeiro turno da manhã vai das 8h às 10h e o segundo vai de 10h às 12h.

É possível frequentar todos os dias, três vezes por semana ou mesmo apenas dois dias – depende da necessidade. Quem trabalha o dia todo e não tem babá geralmente paga atividades complementares no contra-turno, oferecidas pelas próprias escolinhas. Alguns centros também oferecerem o serviço de day care (creche), em que os pais pagam pelas horas extras.

Escola na Austrália

Na Austrália, toda a lógica da sociedade é bem diferente, o que naturalmente tem impacto na visão que o país tem sobre o ensino. Ter babá ou empregada doméstica é algo raríssimo. Eu, honestamente, nunca conheci nenhuma expatriada que tivesse. É que todos os serviços aqui são extremamente caros, o que torna inviável para a maioria das famílias bancar o custo de um profissional desses em tempo integral.

As escolas, então, funcionam o dia inteiro, geralmente das 7h30 até às 18h30, dando margem para os pais levarem e buscarem (o expediente aqui costuma terminar entre 17h30 e 18h). As crianças tomam café, almoçam e lancham. Tudo isso encarece muito o valor da mensalidade.

As escolas públicas só aceitam crianças a partir dos 5 anos de idade, que é quando começa o que eles chamam de primary school. Antes disso, o jeito é mesmo se organizar financeiramente para pagar um child care, oferecidos em diferentes modalidades de acordo com a necessidade das famílias.

Lema australiano: aprender por meio da experiência





Na busca pela escolinha ideal para o meu filho em Sydney, o que mais me chamou a atenção foi a forma como os australianos enxergam o papel da pré-escola. Esqueçam aquele modelo de aulas mais tradicionais, como as que tivemos em nossa infância no Brasil. As crianças pequenas, aqui, dificilmente estarão todas juntas enfileiradas aprendendo números ou alfabeto. Não existe “o” momento de aula de matemática ou de inglês ou de ciências. Tudo é “o” momento e tudo se interconecta.

Os centros que visitei mencionam muito os métodos Montessori e Reggio Emilia, utilizando geralmente uma mistura dos dois. E o que esses métodos têm em comum, afinal? Não sou pedagoga, mas pude perceber que ambos valorizam enormemente a experiência de cada criança. É por meio da brincadeira que elas aprendem.

O efeito disso na prática é que eu, no início, fiquei super angustiada, achando que meu filho não estava tendo “aula” direito. Como assim, cada grupinho numa bancada fazendo atividades diferentes? Conversando com outras mães sobre meu espanto, elas me aconselharam a parar de comparar com o Brasil ou mesmo com as Filipinas.

Na Austrália, eles valorizam muito a independência das crianças pequenas. Então toda a grade da pré-escola é pensada para desenvolver esse aspecto. Embora os professores estabeleçam uma rotina macro (hora de lanchar, hora de contar histórias, hora de brincar no parquinho externo), a rotina micro, dentro da sala de aula, é meio que guiada pela própria criança.

Em geral, a turminha é dividida em dois ou três grupos fazendo atividades diferentes. Sua criança vai participar da atividade que ela quiser, com a qual se identificar mais. Os professores entendem que essa divisão em pequenos grupos fortalece o aprendizado e garante uma melhor proporção entre alunos e cuidadores (a palavra-chave para isso é ratio, como aprendi aqui).

Bom, já vimos que o lema é desenvolver a independência e aprender por meio das brincadeiras. Esses valores são centrais na cultura australiana e estarão sempre presentes. Agora que já vimos os aspectos valorizados na educação por aqui, quero falar sobre os diferentes serviços que você pode encontrar no grande universo da pré-escola e cuidados ocasionais. Eis os mais comuns:

1) Long day care

Para nós, brasileiros, seria o mais próximo do que entendemos como “escolinha”. Essas instituições costumam se autodenominar “learning centres” (centros de aprendizagem) e atendem geralmente desde bebês pequenos a crianças de até 5 ou 6 anos. Funcionam naquela base de que falei mais acima, das 7h30 Às 18h, com refeições e fraldas incluídas (no caso da criança ainda usar, claro). O preço, aqui no meu bairro, fica entre 130 e 150 dólares australianos por dia. Se você tiver cidadania australiana, pode solicitar benefícios governamentais como Child Care Benefit e Child Care Rebate.

Uma informação importante para quem está em busca de pré-escola, como foi meu caso: a criança, em geral, já precisa estar desfraldada. A turminha de preschool começa a partir de 3 anos, idade em que a maioria das crianças australianas já deixou as fraldas. Algumas são mais flexíveis e ajudam no processo de toilet training. Outras, porém, só aceitam a matrícula depois do desfralde.

Muitos centros exigem que a criança já tenha deixado a fralda.


2) Centros ligados aos Councils

Existem os centros ligados aos councils (conselhos) de cada região, que são espécies de prefeituras. Essas instituições têm excelente reputação e os preços são menores em relação aos centros mais “comerciais”. Aqui em Bondi Junction, onde moro, o valor do day care do Waverley Council é de 108 dólares por dia, comparados aos 150 que as outras escolinhas costumam cobrar. A combinação de preço mais baixo e boa fama quanto à qualidade de ensino faz com que essas escolas sejam extremamente disputadas. O procedimento padrão é entrar na lista de espera. Para isso, é preciso pagar e preencher uma ficha na própria secretaria do local. O tempo de espera para bebês pequenos pode chegar a dois anos. Para crianças mais velhas, costuma ser menos demorado, mas ainda assim é algo imprevisível. Sugiro calcular pelo menos um ano até a oferta da vaga.

3) Family Day Care

Como o nome sugere, são casas de famílias cadastradas para funcionar como uma creche. O governo é bastante rigoroso quanto a essa oferta e exige que todas as pessoas que queiram montar um Family Day Care passem por formação e treinamento. Também é preciso atender diversas exigências quanto à infraestrutura, o que garante a segurança das crianças. A diferença em relação aos centros citados acima é que o ambiente de uma family day care é mais caseiro e muita gente acha mais aconchegante, até pelo fato das turmas serem menores. O preço também é menor.

4) Occasional Care, incluindo babás

A relação é mais casual e os pais podem deixar a criança somente em situações pontuais de necessidade. Existem locais especializados nesse tipo de serviço, mas outra opção bastante utilizada aqui são as babás contratadas não em tempo integral, mas sim por algumas horas. As nannies ou babysitters, como são chamadas, podem ser contratadas por intermédio de agências ou mesmo aplicativos de celular. Em Sydney, observei que o pessoal utiliza bastante o Sittr e também o Airtasker. A média de preço é de 25 dólares australianos por hora.

Conclusão

Seja qual for a opção que mais se adapte à sua realidade, esteja com o coração aberto para esse ambiente aparentemente mais solto da pré-escola por aqui. O que vale, para eles, não é a criança saber a tabuada ou conseguir escrever o próprio nome em letra cursiva aos 4 anos de idade. Mais vale uma criança confiante, independente e safa, que consiga se desenrolar bem em diversas situações. Ao menos é isso o que tenho observado pela minha experiência e pela conversa com outras mães :)

Comentários

  1. A Lívia que é pedagoga concorda 100% com esse modelo mais lúdico pra crianças pequenas...ela fala q isso faz diferença lá na frente e e q muitos dos pequenos ainda não tem certas estruturas mentais amadurecidas pra aprender abecedário e etc...tudo tem seu tempo. Tenho uma prima q foi advertida pela escola q o filho não aprendia a ler...o menino tinha 3 anos pleaseee...ele só queria brincar. O q tá certo. E minha prima morrendo de medo...

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    1. Isso mesmo, amiga! Às vezes, a pressa é dos pais, que entram numa loucura coletiva de se comparar, de ver o filho como o grande projeto de sucesso e afirmação. Por que precisamos de uma criança lendo aos 3 anos? São perguntas que devemos sempre nos fazer.Estou adorando seus comentários aqui!! Venha sempre me ler! <3 Te amo!

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